Um estudo clínico randomizado acompanhou por até 15 anos pacientes submetidas à reconstrução mamária tardia após mastectomia. A pesquisa comparou diferentes técnicas a partir de três desfechos: qualidade de vida relacionada à saúde, necessidade de novas cirurgias e custos diretos e indiretos do tratamento.
O trabalho foi conduzido pelo Departamento de Cirurgia Plástica do Sahlgrenska University Hospital, na Suécia, como parte do estudo GoBreast. Segundo o artigo publicado no Scandinavian Journal of Surgery, os resultados foram analisados de acordo com o histórico de radioterapia das participantes.
Ao todo, 100 pacientes foram incluídas na avaliação. A separação dos grupos é relevante porque a radioterapia pode influenciar o planejamento da reconstrução e a evolução dos tecidos. Por isso, o estudo não procurou apontar uma única técnica superior para todas as mulheres, mas observar como diferentes estratégias se comportaram em cenários clínicos distintos.
Resultados entre pacientes sem radioterapia
Entre as participantes que não haviam recebido radioterapia, a comparação envolveu a reconstrução em dois estágios com expansor e o retalho toracodorsal associado a implante. O expansor é utilizado para preparar gradualmente a região antes da colocação do implante definitivo, enquanto o retalho toracodorsal utiliza tecido da área do dorso em conjunto com a prótese.
Nesse grupo, acompanhado por uma média de 12,9 anos, a reconstrução em dois estágios com expansor apresentou melhora estatisticamente significativa na qualidade de vida. A técnica também esteve associada a uma frequência menor de reoperações. De acordo com os dados descritos no artigo, a taxa de novas cirurgias foi aproximadamente metade da observada entre as pacientes submetidas ao retalho toracodorsal com implante.
O resultado indica que o acompanhamento prolongado pode modificar a percepção sobre uma técnica. Além de complicações nos primeiros meses e do resultado estético inicial, a análise de longo prazo considera a necessidade acumulada de intervenções e o impacto da reconstrução na vida cotidiana das pacientes.
Comparação em pacientes que receberam radioterapia
Nas pacientes com histórico de radioterapia, a pesquisa comparou o retalho do músculo latíssimo do dorso com implante e o retalho DIEP. A segunda técnica utiliza tecido da região abdominal para a reconstrução mamária, sem depender exclusivamente de uma prótese.
Nesse subgrupo, as participantes submetidas ao DIEP não registraram reoperações durante o período analisado. O grupo que recebeu o retalho do latíssimo do dorso apresentou uma taxa maior de novas cirurgias. No entanto, a comparação reuniu apenas 25 pacientes, e as diferenças observadas em qualidade de vida e custos não alcançaram significância estatística.
Por causa do tamanho reduzido da amostra, os achados desse grupo devem ser interpretados com cautela. Eles podem contribuir para a discussão clínica sobre alternativas após a radioterapia, mas não permitem concluir, isoladamente, que o DIEP seja a melhor opção para todas as pacientes irradiadas.
Escolha depende de avaliação individual
O registro do ensaio no ClinicalTrials.gov identifica a pesquisa pelo código NCT03963427. A escolha da técnica de reconstrução envolve fatores como radioterapia prévia, condições clínicas, disponibilidade de tecido, preferências da paciente e experiência da equipe responsável pelo procedimento.
Os custos analisados no estudo também precisam ser interpretados dentro do contexto sueco. Valores diretos e indiretos observados em um sistema de saúde europeu não podem ser convertidos automaticamente para a realidade brasileira. Ainda assim, a inclusão desse desfecho reforça que o planejamento deve considerar não apenas a cirurgia inicial, mas também possíveis reoperações e o acompanhamento ao longo dos anos.
O estudo foi publicado on-line em 30 de junho de 2026 no Scandinavian Journal of Surgery e está previsto no volume 115, edição 3, do periódico, em setembro de 2026. O registro bibliográfico também está disponível no PubMed.
Para pacientes que avaliam a reconstrução mamária após o câncer de mama, a principal contribuição da pesquisa é mostrar a importância de uma decisão compartilhada e de um horizonte de acompanhamento mais amplo. A discussão com cirurgiões plásticos e a equipe multidisciplinar deve abordar benefícios esperados, limitações, possibilidade de novas cirurgias e adequação de cada técnica ao histórico clínico individual.
