A bioeconomia ganhou espaço no debate sobre o futuro da Amazônia e, na visão do empresário Alfredo Moreira Filho, fundador e management do Grupo Valore+, ela responde a uma tensão central da região: gerar renda para milhões de pessoas sem repetir o modelo de derrubada da floresta. O termo designa atividades baseadas em recursos biológicos renováveis, como frutos, sementes, óleos e madeira manejada, mas também acumulou expectativas exageradas. Descubra, nos próximos tópicos, o que a bioeconomia é, o que ela não é e onde a técnica agronômica faz diferença.
Uma economia antiga com nome novo
Apesar do vocabulário recente, a bioeconomia está longe de ser novidade na região. A riqueza gerada pelos ciclos da borracha, por exemplo, chegou a bancar a construção do Teatro Amazonas, em Manaus. Castanha, guaraná, pupunha e açaí fazem parte da alimentação e da renda das comunidades amazônicas há gerações.
O que muda agora é a escala e o grau de organização. A cadeia do açaí, sozinha, gira em torno de R$ 5,3 bilhões por ano, e o Pará responde por quase 94% de todo o açaí produzido no país. Alfredo Moreira Filho, que viveu em Itacoatiara e Manaus, enxerga nessa mudança um sinal de que produtos antes associados ao extrativismo de subsistência passaram a disputar mercados exigentes, inclusive fora do Brasil.
Sistemas agroflorestais como base técnica
A principal ferramenta agronômica da bioeconomia são os sistemas agroflorestais, conhecidos pela sigla SAF. Neles, culturas agrícolas convivem com árvores nativas ou plantadas na mesma área, reproduzindo a estrutura da floresta. O cacau, por exemplo, é uma planta que se desenvolve bem à sombra, e no Pará, maior produtor brasileiro, boa parte da produção já sai desse tipo de arranjo.
A Embrapa desenvolveu mais de 200 tecnologias, distribuídas em 50 cadeias produtivas, para substituir a agricultura de derrubada e queima, incluindo arranjos com açaí, cacau, cupuaçu, pupunha e castanha-do-brasil. Montar um SAF rentável, porém, exige escolher espécies compatíveis, planejar o sombreamento e calcular em quanto tempo cada cultura começa a gerar receita. É um trabalho de engenharia biológica e financeira ao mesmo tempo, avalia Alfredo Moreira.

Os limites que o entusiasmo esconde
Seria um erro, contudo, tratar a bioeconomia como solução mágica. Segundo análise do Banco Mundial, o açaí equivale a apenas 0,6% e o cacau a 1,6% do PIB agrícola dos estados amazônicos, números ainda modestos diante da pecuária e dos grãos. O mesmo estudo adverte que estimular essas cadeias de forma isolada pode até aumentar a demanda por terras.
Há também o risco de repetir velhos erros. Especialistas alertam para a tendência de transformar açaí e cacau em produtos padronizados, vendidos a preço baixo e sem diferenciação, o que anularia a vantagem da origem amazônica. Nesse ponto, Alfredo Moreira pondera que o ganho está na qualidade, na rastreabilidade e no beneficiamento local, e não apenas no aumento de volume.
Onde o agrônomo faz diferença
A Amazônia Legal reúne cerca de 700 mil produtores familiares, muitos sem acesso regular a assistência técnica. É nesse espaço que o agrônomo se torna decisivo: orienta o manejo, ajuda a planejar a transição de pastagens e lavouras convencionais para sistemas diversificados e aproxima o produtor de mercados que pagam mais por qualidade.
A pesquisa também avança para encurtar esse caminho. Em Belém, a Embrapa Amazônia Oriental abriga um laboratório vivo de 213 hectares voltado a testar sistemas agroflorestais em escala, com culturas como açaí, cacau e dendê. Na compreensão de Alfredo Moreira Filho, iniciativas assim mostram que a bioeconomia depende menos de discurso e mais de conhecimento aplicado no campo, exatamente a matéria-prima da agronomia.
