Empresas de tecnologia com modelo de receita baseado em mensalidades recorrentes passam a utilizar contratos de assinatura como garantia para antecipar recursos por meio de fundos de investimento em direitos creditórios, alternativa que reduz a dependência de rodadas de capital de risco
O modelo de negócio baseado em assinaturas, no qual o cliente paga uma mensalidade recorrente para acessar um produto ou serviço, se consolidou como referência entre empresas de tecnologia, softwares corporativos e plataformas digitais no Brasil. Métricas como a receita mensal recorrente, acompanhada de perto por investidores e gestores desse tipo de negócio, passaram a ser compreendidas não apenas como indicador de desempenho, mas também como um ativo financeiro capaz de lastrear operações de crédito estruturado.
Diferentemente de uma empresa industrial ou comercial tradicional, cuja geração de recebíveis costuma estar atrelada a vendas pontuais de produtos ou serviços, uma companhia de tecnologia baseada em assinaturas tem um fluxo de receita mais previsível, ancorado em contratos de prazo determinado ou renovação automática, característica que abre espaço para a estruturação de fundos de investimento em direitos creditórios lastreados nesses contratos de assinatura.
Receita recorrente ganha tratamento como ativo financeiro
Ao ceder a um fundo estruturado o direito de receber os valores previstos em contratos de assinatura vigentes, uma empresa de tecnologia consegue antecipar parte de sua receita futura sem diluir a participação societária de seus fundadores, alternativa que se diferencia das rodadas tradicionais de captação junto a fundos de capital de risco, nas quais a empresa normalmente cede participação acionária em troca dos recursos aportados.
Essa modalidade de financiamento ainda está em estágio inicial de desenvolvimento no Brasil, mas já desperta interesse de gestoras especializadas em crédito privado que buscam diversificar suas carteiras para além dos setores tradicionalmente associados a recebíveis comerciais, como o varejo e a indústria.
Volatilidade de cancelamento exige monitoramento constante da carteira
Um dos principais desafios na estruturação de um fundo lastreado em contratos de assinatura está no acompanhamento da taxa de cancelamento dos contratos vigentes, indicador que mede a proporção de clientes que interrompem a assinatura antes do fim do prazo contratual originalmente previsto. Diferentemente de um recebível já emitido e com valor definido, como uma duplicata comercial, um contrato de assinatura de longo prazo carrega o risco de que parte da receita projetada não se concretize, caso o cliente decida cancelar o serviço antes do previsto.
Esse risco exige que administradores fiduciários e gestores especializados nesse tipo de estrutura acompanhem de perto indicadores como a taxa histórica de cancelamento da base de clientes, a concentração de receita entre poucos contratos de maior valor e a diversificação setorial dos clientes que compõem a carteira de assinantes, de forma a dimensionar com precisão o volume de recursos que pode ser antecipado com segurança.
A integração tecnológica entre os sistemas de cobrança recorrente das empresas de tecnologia e a infraestrutura de controladoria do fundo estruturado passa a ser um fator determinante para viabilizar esse tipo de operação em escala. Sem uma conciliação automatizada entre o que é efetivamente cobrado dos assinantes e o que é registrado na carteira do fundo, o acompanhamento diário da posição patrimonial se torna inviável diante do volume de transações de baixo valor individual que caracteriza esse tipo de negócio.
A ID CTVM atua como administradora fiduciária e custodiante de fundos estruturados voltados a diferentes segmentos da economia real, incluindo operações lastreadas em contratos de receita recorrente de empresas de tecnologia, aplicando a essas estruturas os mesmos processos de conciliação em tempo real e auditoria de lastro utilizados em fundos de outros setores sob sua administração. Habilitada pela Comissão de Valores Mobiliários e pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais para atuar em administração fiduciária, custódia qualificada e controladoria, a companhia administra atualmente mais de 550 fundos ativos, o que reflete a diversidade de estruturas de crédito privado às quais aplica sua experiência técnica.
Alternativa ganha espaço entre empresas de tecnologia de médio porte
Para empresas de tecnologia de médio porte que já atingiram maturidade operacional, mas ainda não alcançaram escala suficiente para acessar o mercado de capitais por meio de uma oferta pública, a antecipação de recebíveis de assinatura surge como alternativa intermediária de financiamento, capaz de sustentar investimentos em expansão sem recorrer integralmente a capital de risco ou a linhas bancárias tradicionais, historicamente menos aderentes às particularidades desse tipo de negócio.
Essa alternativa também tende a atrair empresas que já captaram recursos em rodadas anteriores junto a fundos de venture capital, mas que buscam, em um novo ciclo de crescimento, formas de financiamento que não impliquem diluição societária adicional, preservando a participação de fundadores e sócios originais no capital da companhia.
Perspectivas para o crédito estruturado no setor de tecnologia
À medida que o setor de tecnologia brasileiro amplia sua maturidade financeira e passa a contar com um número crescente de empresas com histórico consistente de receita recorrente, a tendência é que operações de crédito estruturado lastreadas em contratos de assinatura ganhem espaço como alternativa complementar às formas tradicionais de financiamento desse segmento. Para administradores fiduciários especializados em crédito privado, acompanhar essa evolução deve seguir como um fator relevante para ampliar a diversificação setorial das carteiras de FIDCs brasileiros.
Sobre a ID CTVM
A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.
