Brigas políticas entre crianças: como promover debates saudáveis

Kalpon Arris By Kalpon Arris
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Os resultados das eleições presidenciais acirraram as brigas e os desentendimentos políticos na sociedade, fazendo surgir inclusive nas escolas diferentes situações de desrespeito, agressão e ameaças. Para especialistas, as crianças refletem, muitas vezes, os comportamentos dos adultos que lhes servem de exemplo, e é preciso cuidar das próprias atitudes para que as más condutas não se reflitam também nos pequenos.

“A forma como a criança vê os seus responsáveis experimentando, lidando e falando sobre questões de conflito, inclusive políticas, fazem parte da formação, de como a criança vai se colocar diante do outro ser humano, seu igual, nos ambientes sociais”, relata a psicanalista infantil Alice Munguba, da clínica psiquiátrica Holiste.

A fonoaudióloga Juliana Portas, consultora em comunicação não violenta pelo Instituto Tiê, diz que o adulto exerce uma influência muito grande sobre todas as pautas relacionadas à criança. “Na maioria das vezes, quando a gente fala sobre a criança, na verdade, estamos falando sobre nós – como nós lidamos com os nossos limites, como respeitamos ou não as regras, como enxergamos a política e como a tratamos no dia a dia”.

Portas afirma que, dependendo da idade, as crianças repetem aquilo que escutam – algumas têm as suas ideias, outras não – e é fundamental trazer para elas essa reflexão da política como um todo. “Claro que depende muito do que cada pai, tutor e professor acredita, mas a vida é política e ela não pode ser encarada só como briga, ódio e rótulos”, ressalta.

A consultora chama a atenção para o hábito de classificar os candidatos em termos como “do bem”, “do mal”, “bandido”, “ladrão” ou “genocida”, por exemplo, o que não ajuda a entender quem são. “Quanto mais a gente rotula as coisas, mais polarizado fica. Toda vez que você objetifica, dá um nome ou traz um julgamento – e não importa se isso é verdade ou não – isso aumenta a chance da violência. Melhor é poder usar o nome, minimizar os rótulos, falar da pessoa, dos atos, das suas conquistas e ideias”. Ela avalia que o principal, nesse panorama pós-eleição, é que a criança possa tirar suas conclusões a partir da história e de dados concretos da realidade, para que tenha um olhar mais “pé no chão”.

Mais fundamento, menos provocação
Para Elvira Pimentel, doutoranda em educação pela Unicamp, especialista em gestão, coordenação e orientação escolar e integrante do Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral), xingamentos e palavras de desrespeito não devem ser incentivados contra ninguém. “As crianças precisam entender que é possível promover um debate com argumentos e não com ofensas, explicando por que a gente gosta ou não, porque a gente defende ou não aquele candidato”, relata a pesquisadora.

Segundo Pimentel, há princípios e valores em jogo nesse debate político, e trazer isso para a criança é reforçar quais são os valores e princípios da família. “Isso já dá fundamento para que a criança possa ir construindo seus argumentos e não precise ofender o outro para sentir que a sua escolha é superior, deixando claro também o que não é tolerável, como ser desrespeitoso, preconceituoso e antidemocrático”.

E para as famílias que estão com os ânimos mais exaltados e não conseguem evitar extremismos, Munguba diz que o mais prudente é preservar a criança dessa exposição, até porque ela pode reproduzir o que ouve sem entender o que está falando. “Claro que as transmissões dentro da família são inevitáveis, mas devem ser feitas tentando ao máximo preservar a condição humana, a condição de possibilidade de diálogo e de coexistência com a diferença, levando em conta a idade e a capacidade de entendimento da criança – esse é o desafio que a gente tem hoje”, avalia a psicóloga.

Papel das escolas
A pesquisadora da Unicamp destaca a função das escolas nesse debate, como um espaço de socialização em nível público, em que crianças e famílias de diferentes valores se encontram e percebem que existem ideias e pensamentos que não necessariamente são os mesmos do seu âmbito privado. “Nesse encontro das diferenças os conflitos vão existir e é preciso aprender a lidar com eles”, diz ela.

Sejam políticos ou outros tipos de divergências de ideias e opiniões, há três formas, segundo Pimentel, de lidar com os conflitos: ações preventivas, para que as crianças aprendam a reconhecer e regular suas emoções; ações de fomento a uma convivência ética, pautada em valores como respeito, justiça para equidade e democracia; e a intervenção de conflitos construtivos, vendo-os como uma oportunidade de aprendizagem e não como algo que não deveria existir.

Para tanto, é necessário pensar em espaços institucionalizados de escuta e diálogo na escola, bem como rodas de conversa e assembleias, em que as crianças possam falar de suas vivências e experiências da democracia e discutir coletivamente o que é justo, o que é bom para um e para o outro.

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