OMS pede que pessoas com experiência vivida orientem políticas de saúde mental

Redação Revista Vida Por Redação Revista Vida
6 Min de leitura

A Organização Mundial da Saúde (OMS) escolheu a participação de pessoas com experiência vivida como tema do Dia Mundial da Saúde Mental de 2026, celebrado em 10 de outubro. A campanha defende que quem conviveu ou convive com condições de saúde mental seja ouvido nas etapas de criação, implementação e avaliação de políticas e serviços de cuidado.

A proposta amplia a discussão para além do diagnóstico e do tratamento individual. Para a organização, a contribuição de usuários dos serviços, familiares e outras pessoas diretamente afetadas pode revelar obstáculos que nem sempre aparecem em avaliações técnicas. A escuta também pode ajudar a identificar falhas no atendimento, reduzir o estigma e aproximar as políticas das necessidades concretas da população.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o conceito de experiência vivida inclui pessoas que receberam atendimento por problemas de saúde mental e também aquelas que enfrentaram dificuldades para obter diagnóstico, tratamento ou apoio. Assim, o conhecimento considerado relevante não se limita à passagem por um serviço específico.

O que significa participar das decisões

Na prática, a participação social em saúde mental pode ocorrer em diferentes momentos. Pessoas com experiência vivida podem contribuir para o planejamento de serviços, apontar barreiras de acesso, avaliar a qualidade do atendimento e ajudar a definir prioridades para políticas públicas. A presença desses grupos também pode influenciar a forma como os cuidados são oferecidos e comunicados.

Esse envolvimento não deve ser tratado apenas como consulta simbólica. A campanha da OMS propõe que a opinião das pessoas afetadas tenha espaço real nos processos de decisão. Isso significa considerar suas percepções na organização dos serviços e reconhecer que a experiência cotidiana pode produzir informações importantes sobre acolhimento, continuidade do cuidado, respeito e autonomia.

A abordagem também se relaciona ao combate ao preconceito. Quando pessoas com histórico de sofrimento psíquico participam de debates públicos e da construção das respostas institucionais, suas vivências deixam de ser vistas somente como problema individual. O diálogo pode contribuir para substituir julgamentos por compreensão e para desenvolver serviços mais centrados nas pessoas.

Por que a OMS defende redes comunitárias

Em material publicado em outubro, a OMS relaciona a participação dos usuários à mudança de modelos de cuidado concentrados em instituições para redes mais próximas da vida cotidiana. De acordo com o comentário The case for shifting mental health care from institutions to communities, o atendimento comunitário deve considerar não apenas os serviços de saúde, mas também áreas como apoio social, educação, trabalho e moradia.

Essa perspectiva busca evitar que o cuidado fique isolado em instituições e não considere as condições em que as pessoas vivem. Redes locais podem facilitar o acesso a diferentes formas de suporte e favorecer a continuidade do acompanhamento. A OMS ressalta que a assistência precisa respeitar a dignidade, os direitos e a autonomia de cada pessoa.

O modelo comunitário não significa retirar a importância do atendimento especializado. A proposta é organizar uma rede capaz de combinar cuidados de saúde com apoio social e participação na comunidade, de acordo com as necessidades apresentadas. Nesse processo, a contribuição de quem utiliza ou já utilizou os serviços pode mostrar onde a rede funciona e onde ainda existem dificuldades.

Saúde mental é influenciada pelo ambiente social

A dimensão coletiva do tema ganha relevância diante da quantidade de pessoas afetadas. Na ficha técnica Mental health: strengthening our response, a OMS informa que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com alguma condição de saúde mental no mundo.

A organização também aponta que pobreza, violência, desigualdade, isolamento social e falta de acesso a serviços podem aumentar os riscos para a saúde mental. Em sentido oposto, relações sociais positivas, educação, trabalho decente e comunidades seguras são apresentados como fatores de proteção. Esses elementos ajudam a explicar por que as políticas precisam considerar o contexto social, e não apenas os sintomas ou diagnósticos.

Para o público, a mensagem da campanha é que saúde mental envolve tanto a disponibilidade de tratamento quanto a possibilidade de ser acolhido, respeitado e ouvido. A participação de pessoas com experiência vivida pode colaborar para que os serviços sejam avaliados a partir de sua utilidade no dia a dia e para que as decisões públicas respondam melhor às diferentes realidades.

O Dia Mundial da Saúde Mental de 2026 coloca esse princípio no centro do debate: ninguém deve ser apenas destinatário das políticas que afetam sua vida. Ao incluir essas vozes na formulação e no acompanhamento das ações, governos e serviços podem construir respostas mais próximas da comunidade, combater o estigma e fortalecer uma assistência baseada em direitos.

Find Us on Socials

Compartilhe esse artigo