Como políticas públicas para alimentação saudável podem quebrar ciclo geracional de pobreza

By Kalpon Arris 384 Views
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Comer bem, com as vitaminas e nutrientes adequados, nem sempre é uma escolha, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e extrema pobreza. Mas, para especialistas, a garantia de uma alimentação saudável – e, sobretudo, contínua – é uma peça-chave para quebrar ciclos de desigualdade que percorrem gerações.

Isso porque a insegurança alimentar e nutricional permeia todos os aspectos do dia a dia, afetando dos estudos ao trabalho. Além disso, a ausência de alimentos saudáveis e consumo excessivo de ultraprocessados pode levar a doenças crônicas e não transmissíveis, como diabetes e obesidade.

Na gestação, especificamente, a má nutrição pode causar problemas tanto no desfecho da gravidez quanto no desenvolvimento do cérebro do bebê, por exemplo. E essas alterações podem estar ligadas aos níveis socioeconômicos e educacionais.

O achado é da pesquisadora e nutricionista Maria Julia de Oliveira Miele, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), vencedora do Prêmio Capes de 2023. O trabalho também é ponto de partida para uma série de reportagens publicadas .

Em cinco matérias, você entenderá qual o peso da alimentação a partir da formação da vida, dos impactos à gestação até aspectos sociais, e por que uma nutrição adequada pode ser aliada no combate à desigualdade.

O peso da fome

A mudança na definição de fome ao longo dos anos é um ponto importante para entender como a má alimentação perpetua desigualdades. A introdução do conceito de “fome oculta”, ou seja, quando os alimentos ingeridos não suprem as demandas do organismo, reforça a ideia de que a segurança alimentar vai além da quantidade e requer, também, qualidade.

Antes, as pessoas se referiam à questão dizendo, simplesmente, que a pessoa passava fome. Os indicadores eram baseados nisso, no total de calorias. Você resolvia o problema da fome com quantidade. O conceito foi evoluindo e se incorporou uma série de outras dimensões que têm a ver com qualidade do alimento. Não é qualquer alimento que resolve o problema, porque tem alimentos até que agravam o problema, como é o caso do processado.
— Walter Belik, economista, professor titular aposentado da Unicamp e diretor do Instituto Fome Zero

O que isso significa? Que, com a incorporação da alimentação saudável aos parâmetros de segurança alimentar, é necessário que as políticas públicas olhem também para a necessidade de disponibilizar alimentos nutricionalmente ricos a todas as classes sociais – e isso vai além de uma cesta básica.

“Esse alimento saudável é um alimento de melhor qualidade que tem essa característica de equilíbrio entre o produto in natura e o produto processado, ultraprocessado. Portanto, isso garantiria melhores condições de saúde para as pessoas. Isso não iria refletir lá na frente com problemas de obesidade, diabetes, outras doenças crônicas não transmissíveis”, destaca.

Alimento é direito, não caridade

Em um cenário onde, muitas vezes, a presença do alimento em si é uma incerteza, a garantia de opções saudáveis pode ir além dos benefícios à saúde e ter impactos socioeconômicos, mudando como famílias enxergam o trabalho e a rotina na escola.

“Quando penso na alimentação contínua, eu penso em quebra de paradigma social. Penso em quebra de geracionalidade de pobreza, extrema pobreza. Quebro ali a necessidade de uma criança e de um adolescente estarem num sinal vendendo bala e fora da escola e criando outros pertencimentos sociais, que a gente sabe que vão levá-los para um caminho ruim”, diz Maria Carolina Becaro, coordenadora do Instituto de Solidariedade para Programas de Alimentação (ISA).
Becaro, que também é vice-presidente do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional de Campinas, destaca também a importância do sentimento de pertencimento para famílias em situação de vulnerabilidade social. Em outras palavras, a capacidade de enxergar o alimento como um direito, e não uma caridade.

“Ela tem o direito de se alimentar com qualidade, de comer frutas, verduras e legumes diariamente de forma diferenciada. Só que ela não tem acesso a isso. Campinas é uma cidade extremamente segregada, que tem desertos e pântanos alimentares. Quando você pensa em hortifrúti, o que chega na nossa periferia? Quem enxerga a nossa periferia?”, questiona.

No caso da educação alimentar, o diretor do Instituto Fome Zero afirma que a disponibilização de palestras e cursos sobre alimentação saudável e aproveitamento integral dos alimentos para pessoas de baixa renda, por exemplo, são algumas das alternativas para atacar o problema.

Temos que pressionar o Estado, porque é um direito na alimentação. Tem um direito que está garantido na Constituição. E não é obrigação do Lula, ou do Tarcísio, ou do prefeito de Campinas. É uma obrigação do Estado. O Estado tem que garantir isso. A sociedade pode ajudar, óbvio, mas tem que saber cobrar do Estado.
— Walter Belik, economista, professor titular aposentado da Unicamp e diretor do Instituto Fome Zero
Já para Maria Carolina Becaro, o trabalho com remuneração digna e a inserção de adolescentes no mercado de trabalho, com o desenvolvimento das habilidades da população em vulnerabilidade social desde a escola, é uma ferramenta poderosa para mudar realidades.

“Para você alcançar isso, as políticas sociais não podem mais ser vistas como benevolência. A política social é um direito. Então, a educação, a saúde, a assistência e a segurança alimentar, o trabalho e renda têm que andar em conjunto. E a gente tem que começar da ponta. A pobreza é geracional”, frisa.

Da Ceasa à mesa
Na Central de Abastecimento de Campinas (Ceasa), as frutas, verduras e legumes que não chegam aos balcões de venda têm destino certo: o Instituto de Solidariedade para Programas de Alimentação (ISA). Lá, os alimentos são selecionados e distribuídos para as famílias cadastradas na instituição.

O ISA atende, mensalmente, 95.146 pessoas que sofrem de insegurança alimentar moderada ou grave. “Estamos falando de famílias que se alimentam uma ou duas vezes no máximo durante o dia, de uma maneira extremamente ruim, com ultraprocessados normalmente, tentando priorizar principalmente o arroz e o feijão”, explica Maria Carolina Becaro.

Engana-se quem pensa que os atendimentos são restritos à metrópole. A instituição, que pertence aos permissionários da Ceasa, também entrega alimentos emergencialmente em cidades como Diadema (SP), Sorocaba (SP), Marília (SP) e Taboão da Serra (SP), além de atender toda a região de Campinas.

“É um instituto único no Brasil e no mundo dentro do seu trabalho. Não tem outro local que faça isso, não tem outra Ceasa no Brasil que faça isso. A gente faz o recolhimento [de alimentos] em todos os permissionários diariamente. Estamos falando de uma média de 300 toneladas por mês de alimento”, detalha a coordenadora.
Para a dona de casa Débora Torres, os alimentos distribuídos pelo ISA são essenciais e fazem parte das “compras do mês” da família há pelo menos cinco anos. “Com o que pego aqui, não vou no mercado comprar uma verdura, um legume, porque não tem nem necessidade. O que eu pego é mais do que suficiente, eu ainda ajudo a avó do meu marido, às vezes divido até com a minha sogra”.

“Eu falava ‘acho que não faz tanta falta’, mas quando fiquei sem, eu percebi. Senti muita diferença e também na questão financeira. Tinha dia que eu ia no mercado e não conseguia comprar o que eu ganhava aqui. Fazia muita falta na minha casa”, conta.

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